domingo, 21 de maio de 2017

4.48 PSICOSE de Sarah Kane




4.48 PSICOSE
de Sarah Kane

 













Tradução de Laerte Mello





 (Um silêncio muito longo.)

- Mas você tem amigos.

   (Um longo silêncio.)

   Você tem muitos amigos.
   O que é que você dá aos seus amigos que faz com que eles te apóiem tanto?

   (Um longo silêncio.)

   O que é que você dá aos seus amigos que faz com que eles te apóiem tanto?

   (Um longo silêncio.)

   O que é que você dá?

   (Silêncio.)

- - - - -


uma consciência consolidada reside num salão de banquete escurecido perto do teto de uma mente cujo chão se move como dez mil baratas quando um feixe de luz penetra como todos os pensamentos se unem num instante de harmonia corpo não mais repelente como as baratas contém uma verdade que ninguém nunca fala


     Tive uma noite em que tudo me foi revelado.
     Como eu posso falar de novo?


hermafrodita em pedaços que só confiou nelenela encontra a sala fervendo em realidade e implora nunca acordar do pesadelo


     e estavam todos lá
     cada um deles
     e eles sabiam meu nome
     enquanto eu escapava feito um besouro ao longo das costas de suas cadeiras


Lembre-se da luz e acredite na luz

Um instante de claridade antes da noite eterna


                    não me deixe esquecer


- - - - -



Eu estou triste

Eu sinto que o futuro é sem esperança e que as coisas não podem melhorar

Eu estou cheia e insatisfeita com tudo

Eu sou um completo fracasso como pessoa

Eu sou culpada, estou sendo punida

Eu gostaria de me matar

Eu costumo conseguir chorar mas agora estou além das lágrimas

Eu perdi o interesse em outras pessoas

Eu não consigo tomar decisões

Eu não consigo comer

Eu não consigo dormir

Eu  não consigo pensar

Eu não consigo ir além da minha solidão, do meu medo, do meu desgosto

Eu estou gorda

Eu não consigo escrever

Eu não consigo amar

Meu irmão está morrendo, meu amor está morrendo, estou matando os dois

Eu avanço em direção à minha morte

Eu estou aterrorizada com a medicação

Eu não consigo fazer amor

Eu não consigo foder

Eu não consigo ficar sozinha

Eu não consigo ficar com outras pessoas

Meus quadris estão muito grandes

Eu não gosto da minha genitália


Às 4.48
quando o desespero visita
eu deverei me enforcar
ao som da respiração de meu amante

Eu não quero morrer

Eu me tornei tão deprimida pelo fato da minha mortalidade que eu decidi cometer suicídio

Eu não quero viver

Eu tenho ciúmes de meu amor adormecido e cobiço sua inconsciência induzida

Quando ele acordar vai ter inveja da minha noite sem dormir de pensamentos e discursos sem atrativos por causa dos medicamentos

Resignei-me a morrer este ano

Alguns vão chamar isso de auto-compaixão
(eles têm sorte de não saber a verdade)
Alguns vão saber o simples fato da dor

Isso está se tornando minha normalidade


- - - - -


                100
                                                                                                             91
                                                           84
                                                                                                             81
                                           72
                                                                  69
                                                                                 58
                                             44
                                                                                 37                        38
                                   42
                                                          21                                                             28
                                                     12
                                                                                 7

                                                           - - - - -


Não foi por muito tempo, eu não estive lá muito tempo. Mas bebendo café amargo eu sinto aquele cheiro medicinal numa nuvem antiga de tabaco e algo me toca naquele lugar ainda soluçante e uma ferida de dois anos atrás se abre como um cadáver e uma vergonha há muito enterrada brande sua fétida e decadente mágoa.



Um quarto de faces sem expressão que encaram com indiferença a minha dor, tão desprovidas de significado que deve haver uma intenção diabólica.

Dr. Isso e Dr. Aquilo e Dr Oqueéisso que estava apenas de passagem e achou que poderia entrar para tirar um sarro também. Queimando num túnel quente de desalento, minha humilhação completa por eu tremer sem razão e por tropeçar nas palavras e por não ter nada a dizer sobre minha "doença" que de qualquer maneira é apenas saber que não há significado em coisa nenhuma porque eu vou morrer. E estou num beco sem saída levada por aquela voz suave e psiquiátrica da razão que me diz que há uma realidade objetiva na qual meu corpo e mente são uma coisa só. Mas não estou aqui nem nunca estive. Dr. Isso escreve e Dr. Aquilo tenta um murmúrio simpático. Me assistindo, me julgando, cheirando o fracasso paralisante que escorre da minha pele, meu desespero me rasgando e o pânico me consumindo me encharcando enquanto eu abro a boca de horror para o mundo e penso por que todos estão sorrindo e me olhando com um conhecimento secreto da minha dolorosa vergonha.

Vergonha vergonha vergonha.
Afogada na sua vergonha de merda.

Médicos misteriosos, médicos sensatos, médicos excêntricos, médicos que você pensaria que são uns porras de uns pacientes se não lhe mostrassem provas do contrário, fazem as mesmas perguntas, colocam palavras na minha boca, oferecem curas químicas para angústias congênitas e cobrem os rabos uns dos outros até eu querer gritar por você, a única médica que me tocou voluntariamente, que olhou nos meus olhos, que riu do meu humor mórbido falado numa voz vinda de dentro do meu túmulo recém-cavado, que tirou um sarro quando eu raspei minha cabeça, que mentiu e disse que era legal me ver. Que mentiu. E disse que era legal me ver. Eu confiei em você, eu amei você, e não é perder você que me machuca, mas sim sua falsidade fodida e descarada que se mascara em notas médicas.

Sua verdade, suas mentiras, não minhas.

E enquanto eu acreditava que você era diferente e que você talvez até sentisse a aflição que às vezes oscilava pela sua face e ameaçava irromper, você estava cobrindo seu rabo também. Como qualquer outra boceta mortal estúpida.

Na minha cabeça isso é traição. E minha cabeça é o tema desses fragmentos desorientados.

Nada pode extinguir meu ódio.

E nada pode restaurar minha fé.

Este não é um mundo em que eu deseje viver.


- - - - -


- Você fez algum plano?

- Tomar uma overdose, cortar meus pulsos depois me enforcar.

- Tudo isso de uma vez?

- Isso não poderia de jeito nenhum ser interpretado como um grito de socorro.

  (Silêncio.)

- Não daria certo.

- Claro que daria.

- Não daria. Você se sentiria sonolenta por causa da overdose e não teria forças para cortar os pulsos.

  (Silêncio.)

- Eu estaria em pé numa cadeira com uma corda enrolada no pescoço.

  (Silêncio.)

- Se você estivesse sozinha você acha que você faria mal a você mesma?

- Eu tenho medo que eu possa.

- Isso não seria uma defesa?

- Sim. É o medo que me mantém longe dos trilhos do trem. Só espero de Deus que a morte seja mesmo a porra do fim. Me sinto como se tivesse oitenta anos de idade. Estou cansada da vida e minha mente quer morrer.

- Isso é uma metáfora, não realidade.

- É um símile.

- Isso não é realidade.

- Não é uma metáfora, é um símile, mas ainda que fosse, a característica que define uma metáfora é que ela é real.

  (Um longo silêncio.)

- Você não tem oitenta anos de idade.

  (Silêncio.)

  Você tem?

  (Silêncio.)

  Você tem?

  (Silêncio.)

  Ou você tem?

  (Um longo silêncio.)

- Você despreza todas as pessoas infelizes ou só especificamente a mim?

- Eu não desprezo você. Você não tem culpa. Você está doente.

- Eu não acho.

- Não?

- Não. Estou deprimida. Depressão é ódio. É o que você fez, você que estava lá e que está se culpando.

- E quem você está culpando?

- A mim mesma.


                                                            - - - - -


Corpo e alma nunca podem se casar

Preciso me tornar quem já sou e bradarei contra esta incongruência que me destinou ao inferno

A esperança insolúvel não me mantém de pé

Eu me afogarei na disforia
            na lagoa negra e fria de mim mesma
            o fosso da minha mente imaterial

Como eu posso voltar à forma
agora que meu pensamento formal se foi?

Não é uma vida que eu possa aceitar.

Eles vão me amar por aquilo que me destrói
            a espada nos meus sonhos
            o pó dos meus pensamentos
            a doença que se reproduz nos cantos da minha mente

Todo elogio tira um pedaço da minha alma

Uma crítica expressionista
Nas cadeiras centrais entre dois bobos
Eles não sabem nada –
            Eu sempre saí livre

Última numa longa linha de cleptomaníacos literários
               (uma tradição honrada pelo tempo)

Roubo é o ato sagrado
No caminho distorcido para a expressão

Um excesso de pontos de exclamação escreve um iminente colapso nervoso
Uma única palavra numa página e lá está o teatro

Eu escrevo pelos mortos
          os não-nascidos

Depois das 4.48 eu não devo falar mais
Eu alcancei o fim desse conto sombrio e repugnante
de um sentimento internado numa carcaça alienígena e
inchado pelo espírito maligno da maioria moral

Eu estou morta há muito tempo

De volta às minhas raízes

                                   
            Eu canto sem esperança na fronteira


- - - - -


RSVP ASAP


- - - - -


Às vezes eu me viro e sinto o cheiro de você e eu não posso seguir eu não posso seguir foda-se sem expressar essa terrível tão fodidamente horrorosa física dolorosa fodida saudade que eu tenho de você. E eu não posso acreditar que posso sentir isso por você e você não sente nada. Você não sente nada?

(Silêncio.)

Você não sente nada?

(Silêncio.)

E eu saio às seis da manhã e começo minha procura por você. Se sonhei a mensagem de uma rua ou um bar ou uma estação eu vou lá. E espero por você.

(Silêncio.)

Você sabe, eu me sinto como se estivesse sendo manipulada mesmo.

(Silêncio.)

Eu nunca na minha vida tive problema em dar a outras pessoas o que elas querem. Mas ninguém jamais foi capaz de fazer isso por mim. Ninguém me toca, ninguém se aproxima de mim. Mas agora você me tocou em algum lugar tão fodidamente profundo que eu não consigo acreditar e eu não consigo ser assim para você. Porque eu não consigo te achar.                      

(Silêncio.)

Como ela é?
E como eu vou saber que é ela quando a vir?
Ela vai morrer, ela vai morrer, foda-se ela só vai morrer.

(Silêncio.)

Você acha que é possível uma pessoa nascer no corpo errado?
                                                                                     
(Silêncio.)

Você acha que é possível uma pessoa nascer na época errada?

(Silêncio.)

Vai se foder. Vai se foder. Vai se foder por me rejeitar nunca estando lá, vai se foder por me fazer sentir uma merda, vai se foder por me fazer sangrar amor e vida, que se foda meu pai por ter fodido minha vida para sempre e que se foda minha mãe por não tê-lo abandonado, mas acima de tudo, vai se foder Deus por ter me feito amar alguém que não existe,
VAI SE FODER VAI SE FODER VAI SE FODER.


                                                            - - - - -

- Ah querida, o que aconteceu com seu braço?

- Eu me cortei.

- Isso foi muito imaturo, procurar chamar a atenção desse jeito.
  Te aliviou de alguma forma?

- Não.

- Aliviou sua tensão?

- Não.
                                                 
- Te aliviou de alguma forma?

  (Silêncio.)

   Te aliviou de alguma forma?

- Não.

- Não entendo por que você fez isso.

- Então pergunte.

- Aliviou sua tensão?

  (Um longo silêncio.)

  Posso olhar?

- Não.

- Queria olhar, para ver se infeccionou.

- Não.

  (Silêncio.)

- Eu achei que você poderia fazer isso. Muita gente faz. Alivia a tensão.

- Você já fez?

- ...

- Não. São e sensato demais porra. Não sei onde você leu isso, mas não alivia a tensão.

  (Silêncio.)

 
  Por que você não me pergunta por quê?
  Por que eu cortei meu braço?

- Você quer me falar?

- Sim.

- Então fale.

- ME.
  PERGUNTE.
  POR QUÊ.

  (Um longo silêncio.)

- Por que você cortou seu braço?

- Porque me faz sentir bem pra caralho. Porque é bom pra caralho.

- Posso olhar?

- Você pode olhar. Mas não toque.

- (Olha) E você acha que não está doente?

- Não.

- Eu acho. A culpa não é sua. Mas você tem que assumir a responsabilidade pelos seus atos. Por favor não faça isso de novo.


- - - - -


Eu temo perder aquela que eu nunca toquei
o amor me mantém escrava numa jaula de lágrimas
Eu rôo minha língua com a qual nunca posso falar com ela
Eu sinto falta de uma mulher que nunca nasceu
Eu beijo uma mulher através dos anos que dizem que nunca devemos nos encontrar

            Tudo passa
            Tudo perece
            Tudo empalidece

           meu pensamento se vai com um sorriso assassino
           deixando uma ansiedade discordante
           que ruge na minha alma

Sem esperança Sem esperança Sem esperança Sem esperança Sem esperança Sem esperança Sem esperança

Uma canção para minha amada, tocando sua ausência
            o fluxo do coração dela, o respingar do seu sorriso

Em dez anos ela ainda estará morta. Quando eu estiver vivendo com isso, lidando com isso,
quando alguns dias se passarem quando eu nem sequer pensar mais nisso, ela ainda estará morta.
Quando eu for uma velha senhora vivendo na rua esquecendo meu nome ela ainda estará morta, ela ainda estará morta, esta
porra
                                      está acabada  


e eu tenho que ficar sozinha

Meu amor, meu amor, por que me abandonaste?

Ela é o lugar de repouso onde nunca deitarei
e a vida não tem sentido na luz da minha perda

            Feita para ser sozinha
            para amar a ausência

            Me encontre
            me liberte
                        desta

                                     dúvida corrosiva
                                     desespero fútil

                                      horror em repouso

            Eu posso ocupar meu espaço
            ocupar meu tempo
            mas nada pode ocupar o vazio de meu coração

            A necessidade vital pela qual eu morreria

                                                                                    Esgotamento


- - - - -


- Nada de ses ou mases.

- Eu não disse se ou mas, eu disse não.

- Não-posso   devo   nunca   tenho-que   sempre   não-vou   devia   não-deverá.
  Os inegociáveis.
  Hoje não.

  (Silêncio.)

- Por favor. Não desligue minha mente na tentativa de me curar. Ouça e entenda, e quando sentir desprezo não o expresse, pelo menos não verbalmente, pelo menos não para mim.

  (Silêncio.)

- Eu não sinto desprezo.

- Não?

- Não. A culpa não é sua.

- A culpa não é sua, isso é tudo que eu sempre ouço, a culpa não é sua, é uma doença, a culpa não é sua, eu sei que a culpa não é minha. Você me disse isso com tanta freqüência que eu estou começando a pensar que a culpa é minha.

- A culpa não é sua.

- EU SEI.

- Mas você permite.

  (Silêncio.)

  Permite?

- Não há uma droga sobre a terra que possa fazer a vida significar algo.

- Você permite esse estado de desesperado absurdo.

  (Silêncio.)

  Você permite.

  (Silêncio.)

- Eu não serei capaz de pensar. Eu não serei capaz de trabalhar.

- Nada vai interferir mais em seu trabalho do que o suicídio.

  (Silêncio.)

- Eu sonhei que tinha ido à médica e ela me deu oito minutos para viver. E eu tinha ficado sentada na porra da sala de espera por meia hora.

  (Um longo silêncio.)

Tudo bem, vamos lá, vamos às drogas, vamos para a lobotomia química, vamos desligar as funções mais altas do meu cérebro e talvez eu me torne um pouco mais fodidamente capaz de viver.

  Vamos lá.


- - - - -


abstração até o limite de


desagradável
inaceitável
desinspirador
impenetrável


irrelevante
irreverente
irreligioso
impenitente


desagradar
deslocar
desencarnar
desconstruir


Eu não imagino
       (claramente)
que uma única alma
            podia   
               poderia
                   deveria
                      ou deverá

e se eles fizessem
não acho
            (claramente)
que outra alma
uma alma como a minha
podia   
               poderia
                   deveria
                      ou deverá

sem levar em conta

Eu sei o que eu estou fazendo
      bem até demais

Nenhum falante de língua materna


irracional
irreduzível
irredimível
irreconhecível


descarrilada
desordenada
deformada
de forma livre


obscuro até o limite do


            Verdadeiro      Certo       Correto
            Qualquer um ou qualquer pessoa
            Cada       cada-um       todos


afogando num mar de lógica
                                    este monstruoso estado de paralisia



                                           ainda doente


- - - - -


Sintomas: Sem comer, sem dormir, sem falar, sem desejo sexual, em desespero, quer morrer.

Diagnóstico: Dor patológica.


Sertralina, 50 mg. Insônia piorada, forte ansiedade, anorexia, (perda de 17 kg,) aumento de intenção, planos e pensamentos suicidas. Interrompido após hospitalização.

Zopiclona, 7,5 mg. Dormiu. Interrompido após erupções na pele. Paciente tentou deixar o hospital à revelia do médico. Detida por três enfermeiros duas vezes maiores que ela. Paciente ameaçadora e não-cooperadora. Idéias paranóicas – acredita que os funcionários do hospital estão tentando envenená-la.

Melleril, 50 mg. Cooperadora.

Lofepramina, 70 mg, dobrada para 140 mg, depois 210 mg. Ganho de 12 kg. Perda de memória recente. Nenhuma outra reação.

Discussão com médico residente que ela acusou de traição depois do que ela raspou a cabeça e cortou os braços com uma lâmina de barbear.

Paciente liberada para o cuidado da comunidade com a chegada de paciente gravemente psicótico à sala de emergência com maior necessidade de um leito hospitalar.

Citalopram, 20 mg. Tremores pela manhã. Nenhuma outra reação.

Lofepramina e Citalopram interrompidos depois que paciente ficou puta devido aos efeitos colaterais e ausência de melhora evidente. Sintomas após a interrupção: Tonturas e confusão. Paciente ficou caindo, desmaiando e andando na frente de carros. Idéias alucinadas – acredita que o especialista é o anticristo.

Cloridrato de Fluoxetina, nome comercial Prozac, 20 mg, dobrada para 40 mg. Insônia, apetite irregular, (perda de 14 kg,) forte ansiedade, incapaz de atingir orgasmo, idéias homicidas em relação a vários médicos e fabricantes de drogas. Interrompido.

Humor: Fodidamente raivoso.
Comportamento: Muito raivoso.

Thorazine, 100mg. Dormiu. Mais calma.

Venlafaxina, 75 mg, dobrado para 150 mg, depois 225 mg. Tontura, baixa pressão sanguínea, dores de cabeça. Nenhuma outra reação. Interrompido.

Paciente recusou Seroxat. Hipocondria – menciona espasmos de piscar de olhos e forte perda de memória como evidência de dyskinesia tardia e demência tardia.

Recusou qualquer outro tratamento.


100 Aspirinas e uma garrafa de Cabernet Sauvignon búlgaro, 1986. Paciente acordou numa piscina de vômito e disse "Durma com um cachorro e levante cheio de moscas". Fortes dores estomacais. Nenhuma outra reação.


 - - - - -


Escotilha se abre
Luz total


                        a televisão fala
                        cheia de olhos
                        os espíritos da visão    

                                    e agora estou com tanto medo

                        Eu estou vendo coisas
                        Eu estou ouvindo coisas
                        Eu não sei quem sou


                                    língua para fora
                                                pensamento truncado


                                    os colapsos inconstantes da minha mente



Onde eu começo?
Onde eu paro?
Como eu começo?
(Já que eu quero ir em frente)

Como eu paro?
Como eu paro?
Como eu paro?
Como eu paro?
Como eu paro?                                     Uma etiqueta de dor
Como eu paro?                                     Apunhalando meus pulmões
Como eu paro?                                     Uma etiqueta de morte
Como eu paro?                                     Espremendo meu coração


                        Eu vou morrer
                                               ainda não
                                                              mas está lá


Por favor...
Dinheiro...
Esposa...                                             

Todo ato é um símbolo
cujo peso me esmaga

Uma linha pontilhada na garganta
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
                        CORTE AQUI



NÃO DEIXE ISSO ME MATAR
ISSO VAI ME MATAR E ME ESMAGAR E
            ME MANDAR PARA O INFERNO

Eu te imploro para me salvar dessa loucura que me come
            uma morte sub-intencional

Eu achei que nunca deveria falar de novo
mas agora sei que há algo mais negro que o desejo


                        talvez isso me salve
                        talvez isso me mate


um assobio melancólico que é o choro de coração partido ao redor da vasilha infernal no teto da minha mente


                        um cobertor de baratas


                                                                        pare essa guerra



                                                Minhas pernas estão vazias
                                                Nada a dizer
                                                E esse é o ritmo da loucura


- - - - -


- Eu asfixiei os judeus, eu matei os curdos, eu bombardeei os árabes, eu fodi criancinhas enquanto elas imploravam por misericórdia, os campos de extermínio são meus, todos deixaram a festa por minha causa, eu vou sugar os seus olhos de merda mandá-los numa caixa para sua mãe e quando eu morrer vou reencarnar como sua filha só que cinqüenta vezes pior e tão louca quanto tudo eu vou fazer da sua vida uma porra de um inferno EU ME RECUSO EU ME RECUSO EU ME RECUSO NÃO ME OLHE [TIRE SEUS OLHOS DE MIM]

- Está tudo bem.

- NÃO ME OLHE [TIRE SEUS OLHOS DE MIM]

- Está tudo bem. Eu estou aqui.

- Não me olhe [Tire seus olhos de mim]


- - - - -
Somos anátemas
os párias da razão

Por que é que estou ferida?
                   Eu tive visões de Deus

e isso deve se passar

Preparai-vos:
pois sereis partidos em pedaços
isso deve se passar

Contemplai a luz do desespero
o fulgor da angústia
e sereis levados à escuridão

Se houver explosão
            (haverá explosão)
os nomes dos que ofendem serão gritados dos telhados

Temam Deus
                    e sua convocação perversa

uma chaga sobre minha pele, um fervilhar no meu coração
um cobertor de baratas onde dançamos
esse infernal estado de sítio

Tudo isso deve se passar
todas as palavras do meu hálito nocivo

Lembre-se da luz e acredite na luz

Cristo está morto
                                    e os monges estão em êxtase

Somos os degradados
que destituímos nossos líderes
e queimamos oferendas para Baal

Venham agora, vamos pensar juntos
A sanidade é encontrada na montanha da casa do Senhor no horizonte da alma que recua eternamente
A cabeça está doente, a membrana do coração dilacerada
Pisem o chão onde caminha a sabedoria
Abracem mentiras lindas –
            a insanidade crônica do são


                                                                        as torções têm início


- - - - -


- Às 4.48
  quando a sanidade visita
  por uma hora e doze minutos eu fico com a mente no lugar.
  Quando isso tiver passado eu terei ido outra vez,
  uma marionete fragmentada, um bufão grotesco.
  Agora estou aqui eu consigo me ver
  mas quando estou encantada pelas miragens vis da felicidade,
  a magia repugnante dessa máquina de feitiçaria,
  eu não consigo tocar na essência do meu eu.

  Por que é que você acredita em mim naquela hora e agora não?

  Lembre-se da luz e acredite na luz.
  Nada importa agora.
  Pare de julgar pelas aparências e faça um julgamento correto.

- Está tudo bem. Você vai ficar melhor.

- A tua falta de fé não cura nada.

   Não me olhe.


                                                             - - - - - -


Escotilha se abre
Luz total


Uma mesa duas cadeiras sem janelas


Aqui estou eu
E lá está meu corpo


                                    dançando sobre vidro


Na hora do acidente onde não há acidentes


            Você não tem escolha
            a escolha vem depois


Corte minha língua
arranque meus cabelos
corte meus membros
mas me deixe meu amor
Eu preferia ter perdido minhas pernas
arrancado meus dentes
sugado meus olhos
do que ter perdido meu amor


brilha   pisca   corta   queima   torce   aperta   afaga   corta   brilha   pisca   soca   queima   flutua   pisca   afaga   pisca   soca   pisca   brilha   queima   afaga   aperta   torce   aperta   soca   pisca   flutua   queima   brilha   pisca   queima


                                    isso nunca vai passar


afaga   pisca   soca   corta   torce   corta   soca   corta   flutua   pisca   brilha   soca   torce   aperta   brilha   aperta   afaga   pisca   torce   queima   pisca   afaga   brilha   afaga   flutua   queima   aperta   queima   pisca   queima   brilha


                                    Nada é para sempre

                                                (fora o Nada)


corta   torce   soca   queima   pisca   afaga   flutua   afaga   pisca   queima   soca   queima   brilha   afaga   aperta   afaga   torce   pisca   flutua   corta   queima   corta   soca   corta   aperta   corta   flutua   corta   pisca   queima   afaga


                                    Vítima. Perpetrador. Espectador.


soca   queima   flutua   pisca   brilha   pisca   queima   corta   torce   aperta   afaga   corta   brilha   pisca   afaga   pisca   soca   pisca   brilha   queima   afaga   aperta   pisca   torce   aperta   soca   brilha   pisca   queima   pisca   brilha


                                    a manhã traz derrota


torce   corta   soca   corta   flutua   pisca   brilha   soca   torce   afaga   pisca   soca   corta   aperta   brilha   aperta   afaga   pisca   torce   queima   pisca   afaga   brilha   afaga   flutua   queima   aperta   queima   brilha   pisca   corta


                                    dor maravilhosa
                                                que diz que eu existo


pisca   soca   corta   afaga   torce   aperta   queima   corta   aperta   corta   soca   pisca   brilha   aperta   queima   corta   afaga   pisca   flutua   brilha   pisca   afaga   aperta   queima   corta   aperta   corta   soca   brilha   pisca   queima


                                    e uma vida mais sã amanhã


- - - - -


100
93
86
79
72
65
58
51
44
37
30
23
16
9
2


- - - - -


A sanidade é encontrada no centro da convulsão, onde a loucura é arrasada pela alma dividida.

Eu me conheço.

Eu me vejo.

Minha vida é apanhada numa teia de razão
            tecida por um médico para aumentar a sanidade.


Às 4.48

                            eu deverei dormir.


Eu vim a você esperando ser curada.

Você é meu médico, meu salvador, meu juiz onipotente, meu padre, meu deus, o cirurgião da minha alma.

E eu sou sua seguidora na sanidade.


- - - - -


para atingir objetivos e ambições

para superar obstáculos e alcançar um alto padrão

para aumentar a auto-avaliação pelo sucesso no exercício do talento

para superar a oposição

para ter controle e influência sobre os outros

para me defender

para defender meu espaço psicológico

para justificar o ego

para receber atenção

para ser vista e ouvida

para excitar, surpreender, fascinar, chocar, intrigar, divertir, entreter ou seduzir os outros

para estar livre de restrições sociais

para resistir à coação e à constrição

para ser independente e agir conforme o desejo

para desafiar a convenção

para evitar a dor

para evitar a vergonha

para apagar humilhações passadas recapitulando ações

para manter o auto-respeito

para reprimir o medo

para superar a fraqueza

para pertencer

para ser aceita

para se aproximar e interagir agradavelmente com o próximo

para conversar de maneira amigável, para contar histórias, trocar sentimentos, idéias, segredos

para comunicar, para conversar

para rir e contar piadas

para conquistar a afeição do Outro desejado

para aderir e se manter fiel ao Outro

para gozar experiências sensuais com o Outro imaginado

para alimentar, ajudar, proteger, confortar, consolar, apoiar, cuidar ou curar

para ser alimentada, ajudada, protegida, confortada, consolada, apoiada, cuidada ou curada

para construir uma relação mutuamente agradável, durável, cooperativa e recíproca com o Outro, com um igual

para ser perdoada

para ser amada

para ser livre


 - - - - -






- Você viu o pior de mim.

- Sim.

- Eu não sei nada de você.

- Não.

- Mas eu gosto de você.

- Eu gosto de você.

   (Silêncio.)

- Você é minha última esperança.

   (Um longo silêncio.)

- Você não precisa de uma amiga você precisa de um médico.

   (Um longo silêncio.)

- Você está tão errada.

   (Um silêncio muito longo.)

- Mas você tem amigos.

   (Um longo silêncio.)

  Você tem muitos amigos.
  O que você dá aos seus amigos para que eles te apóiem tanto?

   (Um longo silêncio.)

  O que você dá aos seus amigos para que eles te apóiem tanto?

   (Um longo silêncio.)

  O que você dá?

   (Silêncio.)

  Nós temos um relacionamento profissional. Acho que temos um bom relacionamento. Mas é profissional.

   (Silêncio.)

   Eu sinto sua dor mas eu não posso manter sua vida em minhas mãos.

   (Silêncio.)

Você vai ficar bem. Você é forte. Eu sei que você vai ficar bem porque eu gosto de você e não se pode gostar de uma pessoa que não goste dela mesma. Temo pelas pessoas de que eu não gosto porque elas se odeiam tanto que também não deixam ninguém gostar delas. Mas eu gosto mesmo de você. Eu vou sentir sua falta. E sei que você vai ficar bem.

   (Silêncio.)

A maioria dos meus clientes quer me matar. Quando eu saio daqui no fim do dia eu preciso ir para casa para o meu amor e relaxar. Eu preciso ficar com meus amigos e relaxar. Eu preciso mesmo dos meus amigos para ficar realmente junto.

   (Silêncio.)

Eu odeio essa porra desse trabalho e eu preciso dos meus amigos para me manter são.

   (Silêncio.)

Me desculpe.

- Não é culpa minha.

- Me desculpe, isso foi um erro.

- Não é culpa minha.

- Não. Não é culpa sua. Me desculpe.

   (Silêncio.)

   Eu estava tentando explicar –

- Eu sei. Estou com raiva porque eu entendo, não porque eu não entendo.


- - - - -


            Engordada
                        Escorada
                                    Expulsa

            meu corpo descompensa
            meu corpo voa para longe

            não há como alcançar
            para além da tentativa de alcançar que eu já fiz

            você vai ter sempre um pedaço de mim
            porque você teve minha vida em suas mãos

            aquelas mãos brutas

            isso vai acabar comigo

            eu achei que era silêncio
            até se fazer silêncio

como você inspirou essa dor?
           
eu nunca entendi
o que é que eu não deveria sentir
como um pássaro voando num céu inchado
minha mente é rasgada por um relâmpago
quando ela voa fugindo do trovão


Escotilha se abre
Luz decidida
e Nada
Nada
vejo Nada


            Como eu sou?
                                                 a filha da negação

de uma câmara de tortura para outra
uma vil sucessão de erros sem perdão
cada passo do caminho eu caí

Desespero me impele ao suicídio
Angústia para a qual os médicos não podem encontrar cura
Nem querem entender
Eu espero que você nunca entenda
Porque eu gosto de você
           
Eu gosto de você
Eu gosto de você
           
imóvel água preta
tão profunda como o infinito
tão fria como o céu
tão imóvel quanto meu coração quando sua voz se foi
devo congelar no inferno
claro que eu te amo
você salvou minha vida


eu queria que você não tivesse
eu queria que você não tivesse
eu queria que você tivesse me deixado sozinha

um filme preto e branco de sim ou não sim ou não sim ou não sim ou não sim ou não sim ou não


        Eu sempre te amei
                        mesmo quando te odiei

        Como eu sou?
                                          exatamente como meu pai


ah não ah não ah não


Escotilha se abre
Luz decidida


                                                                                               a ruptura começa


          Eu não sei mais para onde olhar


          Cansada de procurar na multidão
            Telepatia
               e esperança

          Ver as estrelas
          prever o passado
               e mudar o mundo com um eclipse de prata

a única coisa que é permanente é a destruição
nós vamos todos desaparecer
tentando deixar uma marca mais permanente do que eu mesma


Eu não me matei antes então não procure precedentes
O que veio antes foi só o princípio


           um medo cíclico
           não é a lua é a terra
           Uma revolução


     Querido Deus, querido Deus, o que eu devo fazer?


           Tudo que eu sei
           é neve
                        e negro desespero


            Não sobrou nenhum lugar para me virar
                  um espasmo moral sem efeito
                  a única alternativa ao assassinato


Por favor não me corte para descobrir como morri
Eu te digo como morri

Cem de Lofepramina, quarenta e cinco de Zopiclona, vinte e cinco de Temazepam, e vinte de Melleril

Tudo que eu tinha

Engolida

Cortada

Enforcada

Está feito


            cuidado com o Eunuco
                   de pensamento castrado

            crânio
            sem ferimento


            a captura
              a loucura
                a ruptura
                  de uma alma


            uma sinfonia solo


            às 4.48
            a hora feliz
            quando a claridade visita


            escuridão quente
            que alaga meus olhos


            eu não conheço pecado


            essa é a doença de se tornar grande


            essa necessidade vital pela qual eu morreria


                                                            ser amada



eu estou morrendo por alguém que não se importa
eu estou morrendo por alguém que não sabe

                                                você está me quebrando

Fala
Fala
Fala

                                                um círculo de fracasso de dez metros
                                                não me olhe

Minha última declaração

                                                Ninguém fala

Me legitime
Me testemunhe
Me veja
Me ame

                                                minha submissão final
                                                minha derrota final

a galinha ainda dança
a galinha não vai parar

                                                eu penso que você pensa de mim
                                                do jeito que eu quis que você pensasse de mim

o parágrafo final
o ponto final final

                                               
cuide de sua mãe agora
                                                cuide de sua mãe

                                                Cai neve negra




                        na morte você me abraça

                                nunca livre






eu não tenho nenhum desejo da morte
nenhum suicida jamais teve




me veja esvanecer
me veja

                        esvanecer

me veja

me veja


                        veja






Sou eu mesma que eu nunca encontrei, cuja face está colada no lado inferior da minha mente








por favor abra as cortinas



                     - - - - - - - -

Sarah Kane

A- Dramaturga inglesa (1971- 1999) que escreveu apenas cinco peças antes de se suicidar aos vinte e oito anos.
Edição: Sarah Kane: Complete Plays. London: Methuen (2001)
Obra completa (português de Portugal)
https://pt.scribd.com/document/16398487/Sarah-Kane-1-Obra-Completa-2-2x1





B-Textos:

1- Blasted (1995) {slang para maldito(s). To blast, Explodir; Blast: explosão, esporro, sopro, rajada/ Traduções: Ruínas. Devastados} Relações com Titus Andrônicus, de Shakespeare.

Link: https://cenico.wordpress.com/tag/texto-completo-de-sarah-kane/
Link: https://pt.scribd.com/document/46025566/Blasted-Sarah-Kane


2-
Phaedra's Love ( 1996)  Adaptação de Fedra, de Sêneca.
Link: https://pt.scribd.com/doc/46025568/O-Amor-de-Fedra-Sarah-Kane


3- Cleansed (1998) {purificado(s), limpo(s)}

https://pt.scribd.com/document/46025571/Cleansed-Sarah-Kane


4- Crave {Ânsia} (1998)
 Link: https://pt.scribd.com/doc/46025563/Ansia-Sarah-Kane

5- 4.48 Psychosis {Psicose 4:48} (2000)

Link: https://pt.scribd.com/doc/46025569/Psicose-4-48-Sarah-Kane


C- sobre Sarah Kane

1- Juliana Pomplona.
Personagens nas peças de Sarah Kane. Breve estudo sobre a dramaturgia da autora inglesa
link: http://www.questaodecritica.com.br/2010/11/personagens-nas-pecas-de-sarah-kane/

2- Saunders, Graham Love me or kill me: Sarah Kane and the theatre of extremes. Manchester:Manchester University Press,2002.


D- Vídeos (Psicose)

https://www.youtube.com/watch?v=G7FmDJtpkNs

https://www.youtube.com/watch?v=aX8h_iJ4CDc

https://www.youtube.com/watch?v=GfTTiRwQMpA

https://www.youtube.com/watch?v=PTUopKQqc00

https://vimeo.com/138172060

capa do trabalho escrito


Na capa deve constar:


0- Cabeçalho
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
INSTITUTO DE ARTES
DEPARTAMENTO DE ARTES CÊNICAS

Trabalho da Disciplina Poéticas Teatrais 1/2017



1- título do trabalho

2- nomes do integrantes dos grupo na ordem de sua apresentação


sábado, 20 de maio de 2017

calendário das apresentações dos grupos

As apresentações dos grupos ficam assim distribuídas:

Dia 05/junho Grupos 1 e 2

Dia 07 junho Grupos  3 e 4


Dia 12 junho  5 e 6

Dia 14  Junho Grupo 7


As Apresentações começam às 10:15.
Cada grupo possui até quarenta minutos para expor sua pesquisa.
Cada grupo vai trazer seu pendrive com o material a ser mostrado/
Cada grupo vai preparar sua apresentação e organizar a ordem das falas.
Cada grupo vai preparar uma apresentação em powerpoint.
Cada grupo vai começar sua apresentação entregando o trabalho escrito.
O trabalho escrito reune os textos que são a base da apresentação do grupo.



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Leitura de discussão de Íon, de Platão



LInk para o texto:




v. PERFORMANCE E INTELIGIBILIDADE: TRADUZINDO ÍON, DE PLATÃO
Marcus Mota



SÓCRATES
Mas olha se não é o famoso Íon! De onde você está vindo prá passar agora um tempo com a gente? De Éfeso, tua terra?

ÍON

De jeito nenhum, Sócrates. Venho de Epidauro, das festas em honra de Asclépio. 


SÓCRATES

Então os habitantes de Epidauro também organizam concursos de rapsodos para a

divindade?
ÍON
Isso mesmo, assim como concursos de diversas outras artes.

 SÓCRATES

E como foi? Você competiu? Fale! Como você se saiu?
ÍON


Ganhamos o primeiro prêmio, Sócrates.

SÓCRATES
Meus parabéns! Se continuar desse jeito, vamos ganhar até as Panatenéias.
ÍON
Assim seja, se a divindade quiser.
SÓCRATES
Sabe, Íon, por muitas vezes eu senti inveja do que vocês, os rapsodos, têm a capacidade 


de fazer. Por causa do que vocês fazem, vocês sempre precisam tanto estar bem vestidos, com a aparência o mais esplêndida possível, quanto é necessário que vocês ocupem grande parte do tempo com as obras de muitos artistas excelentes, principalmente Homero, o melhor e mais divino deles, e examinar a fundo mais seu pensamento que suas palavras. Como isso é invejável! Não há como se tornar rapsodo de excelência se não entender o que o artista apresenta. Pois o rapsodo deve ser, para os ouvintes, o intérprete do pensamento do artista. E é impossível fazer isso bem sem ter conhecimento do que o artista diz. Realmente todas essas coisas são dignas de inveja.
ÍON
É verdade o que você diz, Sócrates. Quanto a mim, essa é a parte da minha profissão que mais me deu trabalho. E acho que, entre os homens, sou aquele que diz as mais belas coisas sobre Homero. Pois nem Metrodoro de Lâmpsaco nem Estesímbroto de Tasos, nem Glauco, nem nenhum outro entre os que já viveram enunciaram tantos e belos pensamentos sobre Homero como eu.

SÓCRATES

Muito bem, Íon. Então é claro que não vai me negar uma demonstração disso.
ÍON
Não, nunca: vale a pena ouvir, Sócrates, como eu bem embelezo Homero, tanto que acho

que mereço ser coroado pelos Homéridas com uma coroa de ouro. 
SÓCRATES
Não, não - outro dia eu arranjo tempo para te ouvir. Agora me responde só essa pequena pergunta: você é tão bom apenas em Homero ou também em Hesíodo e Arquíloco?

ÍON

De jeito nenhum: só em Homero. E prá mim parece ser o suficiente.
SÓCRATES
Há algum assunto sobre o qual tanto Homero quanto Hesíodo dizem as mesmas coisas?


ÍON

Eu acho que sim e devem ser muitos.
SÓCRATES 

E a respeito desses você poderia explicar o que diz Homero ou o que diz Hesíodo?

ÍON

Eles dizem a mesma coisa quando falam das mesmas coisas.
SOCRATES

Mas sobre o que não dizem a mesma coisa? Vamos tomar a habilidade interpretar signos divinos como exemplo.16 Dizem a mesma coisa sobre ela Homero e Hesíodo?

ÍON

Com certeza!
SÓCRATES
Com certeza? Então sobre o que nossos dois artistas concordam ou discordam sobre esta

habilidade, quem poderia melhor explicar, você ou um adivinho dos bons? 
ÍON

Um adivinho.

SÓCRATES
Mas e se você fosse um adivinho, e fosse capaz de explicar as coisas nas quais

concordam, não seria capaz também de explicar as coisas nas quais discordam?
ÍON

Claro que sim.

SÓCRATES
Mas por que então você é muito bom apenas em Homero, e não em Hesíodo e nem nos

outros artistas? Será que Homero fala diferentes coisas que os outros artistas todos? Por acaso não é sobre a guerra e sobre as relações entre homens bons e maus, leigos e profissionais e relações dos deuses entre si e com os homens, e o que acontece nos céus e no Hades e a origem dos deuses e dos heróis o que ele tanto performou17? Não foram essas coisas que Homero expressou em suas obras18?

ÍON

É verdade, Sócrates.
SÓCRATES
E os outros artistas? Eles não realizaram obras sobre essas mesmas coisas? 

ÍON
Realizaram, Sócrates, mas não como Homero. 

SÓCRATES

Como não? Pior?
ÍON


Mas muito.

SÓCRATES
Então Homero é melhor?
ÍON
Muito melhor, por Zeus.
SÓCRATES
Vejamos agora, meu bom amigo Íon: quando diversas pessoas falam sobre números e

uma só falou melhor, qualquer um vai reconhecer sem dúvida aquela que fala bem, não é? 
ÍON
Isso.

SÓCRATES
E será esse mesmo o que precisamente vai reconhecer também os que não falam bem, ou


outro?

ÍON


Sem dúvida será esse mesmo.

SÓCRATES
E não é esse aquele que possui competência em números19?
ÍON
É sim.
SÓCRATES
Mas e agora? E quando diversas outras pessoas discutem sobre quais são os alimentos

bons para a saúde e uma delas fala melhor, será diferente a pessoa que for capaz de reconhecer a excelência da que fala melhor daquela que reconhecer a inferioridade da que fala pior ou são a mesma e única pessoa?

ÍON

Claro, sem dúvida que é a mesma. 
SÓCRATES
E quem é essa pessoa? Como se chama?
 ÍON
O médico.
SÓCRATES
Então, resumindo, concluímos que sempre é a mesma pessoa, entre os que estão falando sobre a mesma coisa, que vai reconhecer quem fala bem e quem não fala ou, se não reconhecer quem não fala bem, é claro que não vai reconhecer quem fala, ao menos sobre a mesma coisa.

ÍON

É isso.
SÓCRATES
Não é então a mesma pessoa que melhor conhece ambos, um e outro?
ÍON
É.
SÓCRATES
De acordo contigo, Homero e os outros artistas, entre os quais estão Hesíodo e Arquíloco,

apresentam as mesmas coisas, mas não do mesmo modo - uns bem e outros bem pior - não é? ÍON

Digo apenas a verdade.

SÓCRATES
Ora, se você realmente sabe identificar quem apresenta bem, será, quem sabe, capaz de

identificar a inferioridade dos piores, não é?
ÍON
Parece que sim.

SÓCRATES
Mas então, meu magnífico amigo, não estaremos enganados ao dizer que o famoso Íon é

o melhor conhecedor de Homero e dos outros artistas, a partir do momento em que ele mesmo concorda que uma mesma pessoa será juiz competente de todos os que enunciam as mesmas coisas e que quase todos os artistas elaboram suas obras sobre as mesmas coisas?
ÍON
Mas, Sócrates, qual é a razão pela qual, quando alguém há uma discussão sobre um artista qualquer eu não consigo prestar atenção, nem dizer algo de útil e simplesmente pego no sono, enquanto que, quando o nome de Homero é pronunciado, imediatamente acordo e fico atento e falo sem parar?
SÓCRATES
Não é difícil adivinhar por quê, meu amigo. Prá todo mundo é claro que você é incapaz de falar sobre Homero seja por habilidade, seja por muito raciocínio. Pois se você fosse capaz de falar com base na habilidade, saberia falar sobre todos os outros autores, já que deve haver uma teoria geral das habilidades performativas, não é mesmo?

ÍON

É.
SÓCRATES
Ora, quando se toma em consideração uma habilidade qualquer como um todo, não terá

ela o mesmo método de exame de todas as habilidades? Quer que eu te explique, Íon, por que eu disse isso?

ÍON

Quero muito, Sócrates! Por Zeus! Como eu gosto de ouvir vocês os sábios!
SÓCRATES
Gostaria que você estivesse dizendo a verdade, Íon. Pois sábios mesmo são vocês os

rapsodos, os atores e os autores das obras que vocês cantam. Eu apenas de nenhuma outra coisa falo a não ser do que é a verdade, como faz um homem comum. A respeito do que agora há pouco te perguntei, olha como é simples e trivial, tanto que qualquer homem consegue entender o que eu disse: o método é o mesmo quando se toma em consideração uma habilidade em sua totalidade. Por exemplo: a pintura pode ser vista em sua totalidade?

ÍON

Pode.
SÓCRATES
Já não existem ou existiram muitos pintores excelentes e medíocres?
ÍON
Com certeza muitos.
SÓCRATES
E por acaso você já viu alguém que saiba mesmo mostrar o que está bem ou mal pintado

nas obras de Polignoto, filho de Aglaofonte, mas quanto a outros pintores não consegue mostrar nada? E quando lhe mostram obras de outros autores, ele não pega no sono e se perturba e fica sem nada de útil para falar até se precisa dar sua opinião a respeito de Polignoto ou de outro pintor que lhe agrade, então acorda, se mostra atento e fala sem parar?

ÍON

Nunca vi um assim! Por Zeus! Não mesmo!
SÓCRATES
Não? E quanto à escultura: você já viu alguém que saiba mesmo explicar o que está bem

feito nas obras seja de Dédalo, filho de Metíon, ou Epeu, filho de Panopeu, ou Teodoro de Samos, ou qualquer um outro escultor, um só, mas que diante das obras de outros escultores fique confuso, sonolento, sem ter o que dizer? 
ÍON

Não! Por Zeus! Nunca vi alguém assim!

SÓCRATES
Mas eu penso que nem na arte de tocar o aulos ou a cítara, nem de cantar acompanhado

da cítara ou da rapsódia você jamais viu alguém que fosse grande comentador de Olimpo ou de Tâmiris, de Orfeu, ou de Fêmio, o rapsodo de Ítaca, que ficasse confuso e sem ter o que dizer sobre o que foi bem ou mal realizado durante performance de Íon de Éfeso.
ÍON
Sobre isso não tenho nada prá dizer contra, Sócrates. Mas sei comigo que falo e muito bem as melhores coisas sobre Homero, mais que qualquer outro homem e que todo mundo reconhece minha qualidade. Menos quanto a outros autores. Me mostre a razão disso.
SÓCRATES
Mostro, Íon, e vou te fazer ver o que é isso, segundo o que me parece. Isso de você falar bem de Homero não é uma grande habilidade, como eu já te disse, mas vem de um poder divino que te move, poder esse similar ao da pedra que Eurípides chamou de ‘magnética’ e outros chamaram ‘heracléia’. Esta pedra não atrai somente os anéis de ferro como também infunde nesses anéis um poder tal que os torna capazes de fazer o que a pedra faz: atrair outros anéis, tanto que algumas vezes podemos ver uma grande cadeia de pedaços de ferro suspensa, os anéis, um após outro, ligados. Todos dependem do poder da pedra. De modo igual a Musa inspira, e através dos são inspirados por ela, outros mais são inspirados, erguendo-se uma cadeia. Por isso todos os artistas épicos de excelência compõem e performam essas suas belas obras não por causa de suas habilidades, mas sim porque estão inspirados e possuídos. Assim também os líricos de excelência, como Coribantes que dançam quando estão em delírio, eles estão fora de si ao compor e performar suas belas obras. E se entregam aos sons e aos ritmos, extasiados e possuídos como as bacantes que, quando possuídas, bebem leite e mel dos rios, o que não fazem quando estão em si. Assim é a alma dos artistas líricos, segundo eles mesmos falam. Pois afirmam sem dúvida alguma que colhem para nós trazer seus versos de fontes de mel, jardins e vales da Musa, como as abelhas, voando. Como dizem a verdade! Pois o artista é uma coisa leve, alada e sagrada, que só faz alguma coisa se antes estiver inspirado ou fora si, a razão não mais nele. Enquanto continuar de posse dessa faculdade, nenhum homem é capaz de criar ou profetizar. Assim, não é em virtude de uma habilidade própria que fazem ou dizem tão belas coisas sobre os acontecimentos, como você sobre Homero, mas sim por divina distribuição, cada um somente podendo criar bem naquilo que a Musa lhe impeliu: uns para ditirambos, outros nos encômios ou ainda hiporquemas, uns, versos hexâmetros, outros, em iambos. Nas modalidades diferentes da sua, cada um dos artistas é medíocre. Por isso, não é por habilidade que fazem essas obras, mas sim pelo poder divino. Porque se, por sua habilidade, soubessem discorrer muito bem sobre uma só coisa, saberiam também sobre todas as outras. E se o deus toma deles o entendimento, usando-os como servos, assim como faz com os adivinhos e profetas, é para que nós os que ouvimos possamos compreender que não são eles que estão expressando coisas assim de tão grande valor - já que o entendimento neles não está – mas sim que é o próprio deus que tudo faz e que, através deles, ressoa, para nós, a sua voz. A maior prova disso é Tínico de Cálcis, que nunca realizou alguma coisa que pudesse ser digna de lembrança a não ser o peã que todos cantam, e que é talvez o mais belo de todos, o qual ele mesmo diz ser simplesmente ‘um achado das musas’. Prá mim, realmente, nesse caso parece bem claro que o deus nos demonstra, para que não tenhamos dúvida alguma, que essas belas realizações não são humanas, nem feitas por homens, mas que são divinas e feitas pelos deuses, e que os artistas não passam de intérpretes dos deuses, cada um deles possuído pela divindade que o inspira. Para comprovar isso é que o deus deliberadamente faz que a mais bela melodia seja cantada pelo artista mais medíocre. Não te parece que disse a verdade, hein Íon?
ÍON
Por Zeus que disse mesmo, me parece! Tuas palavras me tocam a alma, Sócrates. E prá mim acho que é por divina distribuição que os grandes artistas estão juntos de nós como intérpretes dos deuses.

SÓCRATES

E vocês os rapsodos por acaso não interpretam as obras dos artistas?
ÍON
Isso é verdade.
SÓCRATES
E por acaso vocês não são intérpretes de intérpretes?
ÍON
Sem dúvida alguma.
SÓCRATES
Então olha Íon, diz prá mim, não esconda nada do que eu te perguntar: seja interpretando

quando Ulisses surge sob as portas de sua casa, revela-se aos pretendentes e derrama suas flechas diante dos pés deles24 ou quando Aquiles se lança sobre Heitor, seja as tristezas de Andrômaca, Hécuba e Príamo, quando você performa os versos e causa tamanho impacto nos
expectadores, você está de posse de seu entendimento ou está fora de si, com tua alma inspirada pelos teus versos pensando estar presente nos acontecimentos que você interpreta, estando ora em Ítaca, ora em Tróia ou em qualquer outro lugar que teus versos mostrem?
ÍON
Isso que você disse, Sócrates, prá mim é a mais clara prova. Vou falar sem esconder nada. Quando eu apresento algo triste, meus olhos se enchem de lágrimas. Se é assustador ou terrível, meus cabelos ficam em pé de medo e o coração dispara.
SÓCRATES
Viu? Olha Íon, nós poderíamos afirmar que está na posse de suas faculdades mentais um homem tal que, enfeitado com roupas multicoloridas e coroas de ouro, fica chorando durante sacrifícios e festas, apesar de não ter perdido nenhuma de suas coisas, ou que se apavora diante de mais de vinte mil pessoas que gostam dele, sem que tenham roubado as roupas de seu corpo ou feito algum mal para ele?

ÍON

Por Zeus que não, Sócrates, não mesmo, falando de verdade.
SOCRATES
E você sabe que sobre a maior parte dos espectadores vocês conseguem produzir essas

mesmas reações? 
ÍON
Sei muito bem. Do alto do meu estrado eu vejo quando eles choram, ficam terrivelmente perturbados e se afetam com as coisas que faço. É preciso realmente aplicar-se com todo o entendimento para as reações do público. Porque se consigo fazer com que eles chorem, eu vou rir muito com o dinheiro que me pagam, mas se os faço rir, sou eu quem vai chorar pelo dinheiro que deixei de ganhar.
SÓCRATES
Você compreende agora que este espectador é o último dos anéis da cadeia que, como eu disse, recebe, passando de um por um, o poder da pedra Heracléia? O do meio é você, rapsodo e ator. O primeiro anel é o autor ele mesmo. E o deus, através de todos esses, atrai para onde quiser a alma dos homens, fazendo o poder de um depender do poder dos outros. A partir dele, como daquela pedra, ergue-se uma enorme cadeia de cantores, dançarinos, diretores de coros e auxiliares, unidos um após outro aos anéis que pendem da Musa. Um artista é erguido por uma Musa, outro por outra – chamamos isso de ‘estar possuído’, o que se aproxima de dizer que ‘foi pego’. Aos primeiros anéis, os autores, se ligam uns outros, e alguns destes se inspiram em Orfeu, em Museu. Mas a maioria é possuída e tomada por Homero. Você, Íon, é um desses, um dos possuídos por Homero. Quando alguém performa algo de outro autor, você fica com sono e não sabe o que falar; mas quando alguém faz ressoar os versos de Homero, imediatamente você presta atenção, a tua alma dança e você fala sem parar. Nem por habilidade, nem por muito raciocínio é que você diz o que diz sobre Homero, mas sim em virtude de divina distribuição e possessão, do mesmo modo que os Coribantes que percebem agudamente somente a música do deus que os possui e para esta música buscam bem movimentos e palavras, sem pensar em outras canções e danças. Você é assim como eles, Íon: quando alguém menciona Homero, você não sente dificuldade.Já quanto aos outros, você não consegue dizer nada.E, respondendo a tua pergunta, a causa de você não ter dificuldade alguma em Homero e muita nos outros está nisso: não é por habilidade mas sim por divina distribuição que você é tão bom em se mostrar sobre Homero.
ÍON
Bem respondido, Sócrates. Entretanto, eu ficaria maravilhado se você argumentasse tão bem que me convencesse que eu mesmo mostro minhas habilidades sobre Homero somente quando estou em estado de possessão e delírio. Acho que você não acreditaria nisso se me assistisse desempenhando Homero.

SOCRATES

È claro que quero te assistir. Mas não antes de você me responder isso: das coisas que

Homero diz, de qual delas você sabe falar bem? Pois com certeza não é de todas.
ÍON

Sabe, Sócrates, não tem uma que escape de mim.

SÓCRATES
Mas com certeza há coisas que você não sabe e Homero disse em seus versos.
ÍON
Mas então que coisas são essas que Homero diz e eu não conheço?
SÓCRATES
Por acaso Homero muitas vezes e sem pressa não discorre sobre habilidades? Por

exemplo: a condução de carros de cavalos. Se conseguisse lembrar os versos, eu te mostraria isso.

ÍON

Eu lembro, eu mostro.
SÓCRATES
Apresenta então o que Nestor falou para seu filho Antíloco, quando o adverte a tomar

cuidado com a curva de volta na corrida de cavalos em honra de Pátroclo. 
ÍON
“E você se incline, disse, sobre teu carro bem construído, levemente para a esquerda dos cavalos. E o cavalo da direita açoita, aos gritos, e afrouxa com as mãos as rédeas. No marco da virada, que o cavalo da esquerda passe tão perto que o cubo da roda pareça ter atingido o limite. Cuidado, não toque a pedra.”
SÓCRATES
Chega. Agora, Íon, quem é melhor para dizer se esses versos estão corretos ou não: o médico ou o condutor de carros de cavalos?

ÍON

O condutor é claro.
SÓCRATES
É por que ele tem a habilidade ou por alguma outra razão?
ÍON
Não, é por causa da habilidade.
SÓCRATES
Por acaso a cada uma das habilidades não tem o deus concedido a capacidade de

conhecer algo em particular? Pois não é com o que conhecemos da habilidade de pilotar um barco que também podemos conhecer da habilidade de exercer a medicina.

ÍON

Claro que não.
SÓCRATES
Muito menos vamos conhecer a habilidade de um carpinteiro pela de quem exerce a

medicina.
 ÍON
Claro que não.

SÓCRATES
Mas não é isso quanto a todas as habilidades: aquilo que conhecemos de uma não

conhecemos por outra? Mas, antes, me responde isso: você concorda ou não que as habilidades sejam diferentes uma das outras?

SÓCRATES

Concordo.
SÓCRATES
Acaso, como eu, você não considera também que quando uma habilidade tem por meta

saber umas coisas e outra habilidade outras coisas, recebem nomes diferentes por isso? Não é assim contigo?

ÍON

É. 
SÓCRATES
Pois se realmente tivessem por meta saber as mesmas coisas, como nós poderíamos dizer que uma habilidade é diferente da outra, posto que seria possível conhecer as mesmas coisas por ambas ? Por exemplo: sei que tenho cinco dedos e você sabe a mesma coisa que eu. Se eu te pergunto se é pela mesma habilidade, a dos números, que eu e você conhecemos essas coisas ou se é por outra, você sem dúvida vai responder que é pela mesma habilidade.

ÍON

Vou.
SÓCRATES
Então agora me responde a pergunta que te fiz antes: não te parece que em todas as

habilidades com uma nós conhecemos necessariamente as mesmas coisas e já com outra não, pois, sendo diferente, torna necessário conhecer outras coisas?

ÍON

Parece ser assim prá mim, Sócrates.
SÓCRATES
Sendo assim, aquele que não possui uma habilidade tal , não será capaz de conhecer bem

as coisas que dizem ou se fazem com essa habilidade, não é ? 
ÍON

Essa é a verdade.

SÓCRATES
A respeito dos versos que você performou, quem poderá dizer se Homero falou o certo,

você ou um condutor de carro de cavalos? 
ÍON

O condutor.

SÓCRATES
Isso porque você é um rapsodo e não um condutor.
ÍON
É.
SÓCRATES
A habilidade do rapsodo é diferente da do condutor?
ÍON
É.
SÓCRATES
Então se é diferente, é um saber sobre diferentes ações?
ÍON
É.
SÓCRATES
E quando Homero conta que Hecamedes, a amante de Heitor, deu de beber ao ferido Macáon um caldo de aveia? Mais ou menos assim:

“sobre o vinho de Pramno, ralou raspas de queijo de cabra
com um ralador de bronze, e uma cebola junto como aperitivo”


Se Homero falou certo ou não, quem deve decidir bem é a habilidade do médico ou a do

rapsodo?
 ÍON
É a do médico.

SÓCRATES
E quando Homero afirma que
“ e ela, se lançou ao profundo mar, como chumbo que,
enganchado em um corno de boi do campo, está pronto
para trazer morte aos peixes vorazes”,
o que vamos responder: qual é a melhor habilidade, a do pescador ou a do rapsodo, para

julgar se o que estes versos dizem está certos ou não?
ÍON

É claro que é o pescador, Sócrates.

SÓCRATES
Agora imagina o seguinte, você me perguntando assim prá mim: “Então Sócrates, já que
você consegue encontrar em Homero ações cujo julgamento cabe a cada uma dessas habilidades, vem agora, eu te peço, e procura descobrir também, quanto ao adivinho e à habilidade de adivinhação, quais são as ações que competem para quem quiser decidir se foram bem ou mal realizadas.” Olha com que facilidade e verdade eu vou te responder. Homero muitas vezes fala disso na Odisséia, como quando um dos descendentes de Melampo, o adivinho Teoclímeno diz aos pretendentes:

“ Desgraçados! De que doença vocês sofrem? A noite envolve

a cabeça, o rosto e os membros inferiores de vocês ,
um grito de lamento irrompe feito fogo e as lágrimas tomam conta dos rostos.

O vestíbulo e o pátio estão cheios de sombras dos mortos
que se dirigem para a escuridão das trevas. O sol

desapareceu do céu e um terrível nevoeiro estende-se”, e outras tantas na Ilíada, como quando do combate junto às muralhas:

“uma ave apareceu sobre eles, quando estavam ansiosos quanto à travessia, uma águia que voava alto, sobre o flanco esquerdo dos exércitos, detendo-os. Trazia nas garras uma monstruosa serpente sanguinária
ainda viva e se debatendo, mas que não se rendia sem lutar.
Tanto que mordeu seu capturador no peito, perto do pescoço,
dobrando-se sobre si. A águia, sofrendo com a dor,

lança a serpente terra abaixo, que cai em meio aos combatentes.
A águia então solta um grito e voa seguindo o soprar dos ventos.
Eu diria que estas passagens e outras do mesmo tipo são as que competem ao adivinho

examinar e julgar.
ÍON
O que você está dizendo é a verdade, Sócrates.

SÓCRATES
E o que você diz, Íon, também é verdade. Mas agora é tua vez: assim como eu escolhi da

Odisséia e da Ilíada ações que são típicas do adivinho, do médico e do pescador, seleciona prá mim, já que você é mais experiente nas coisas sobre Homero que eu, as ações que são típicas do rapsodo e de sua habilidade, Íon, as quais competem apenas ao rapsodo examinar e avaliar melhor que outros homens poderiam fazer.

ÍON

Prá mim são todas, Sócrates. Todas.
SÓCRATES
Não diga isso, Íon. Está perdendo a memória? Pega mal prum rapsodo perder a memória.
ÍON
Do que é que eu me esqueci?
SÓCRATES
Você não lembra de ter dito que a habilidade do rapsodo era diferente da habilidade do

condutor de carro de cavalos?
 ÍON Lembro.

SÓCRATES
E sendo diferentes, você não aceita que conheceriam coisas diferentes?
ÍON
Aceito.
SÓCRATES
Logo, segundo o que você mesmo disse, nem a habilidade do rapsodo, nem o rapsodo pode conhecer tudo.
 ÍON

Certo, mas exceto as coisas que são típicas de outras habilidades.

SÓCRATES
Por essas “coisas” você quer dizer menos as que pertencem às outras habilidades. Mas e

quanto à tua – o que se conhece por ela, já que conhece tudo?
ÍON
Penso que aquilo que diz respeito tipicamente a um homem, ou a uma mulher, a um escravo ou homem livre, a um liderado ou ao chefe.
SÓCRATES
Você quer dizer que o rapsodo será capaz de conhecer melhor que o piloto aquilo mais típico que corresponde ao comando de um barco atingido por tempestade no mar?

ÍON

Não, nisso o piloto é melhor conhecedor.
SÓCRATES.
Mas então o rapsodo conhecerá melhor que o médico aquilo mais típico que corresponde a

quem cuida de uma pessoa doente?
ÍON
Isso também não.

SÓCRATES
Então é o que tipicamente corresponde ao escravo?
ÍON
Isso sim.
SÓCRATES
Então, segundo o que você diz, o rapsodo e não o escravo que cuida do gado é quem vai

conhecer o que tipicamente corresponde ao escravo quando ele apascenta os bois enfurecidos? ÍON

Claro que não.

SÓCRATES
Então é sobre o que tipicamente corresponde a quem trabalha com a lã, seu trabalho de

tecer os fios?
 ÍON

Não.

SÓCRATES
Então é o que tipicamente corresponde ao comandante militar quando em situação de

exortar seus soldados?
 ÍON
Isso: é esse tipo de coisa que o rapsodo vai conhecer.

SÓCRATES
O quê?!! A habilidade do rapsodo é a mesma habilidade do comandante?
ÍON
Não tenho dúvida que eu próprio saberia agir e falar como tipicamente corresponde a um

comandante.
SÓCRATES
Talvez porque você se comporte como um comandante, Íon. E se por acaso você fosse tanto um cavaleiro quanto um citarista, e soubesse quais cavalos são bons ou não para montar. E então eu te perguntasse “ Por qual das habilidades de fato você sabe que cavalos são bons de montaria – pela habilidade do cavaleiro ou do citarista?” o que você me responderia?

ÍON

Pela habilidade do cavaleiro, eu responderia.
SÓCRATES
Assim, se você soubesse identificar os que tocam bem cítara, não há como discordar que

faria isso por causa do conhecimento da habilidade da cítara e não da habilidade de cavaleiro.
ÍON

Certo.

SÓCRATES
Então, já que você conhece as habilidades militares, você sabe disso por ser um

comandante ou um bom rapsodo? ÍON

Prá mim não há diferença alguma!

SÓCRATES
O quê?!! Você disse nenhuma diferença? A habilidade do rapsodo e a do comandante são

uma só ou duas coisas diferentes?
ÍON

Prá mim são uma coisa só.

SÓCRATES
Então qualquer um que seja um bom rapsodo, será um bom comandante ?
ÍON
Com toda certeza, Sócrates.
SÓCRATES
Assim também qualquer um que seja um bom comandante será um bom rapsodo, não é?
ÍON
Não, já isso não.
SÓCRATES
Mas você continua a defender isso, que qualquer que seja um bom rapsodo, será um bom comandante ?

ÍON

Sem dúvida.
SÓCRATES
Sendo assim, você é o melhor rapsodo de toda a Grécia, não é?
ÍON
E de longe, Sócrates.
SÓCRATES
E também, Íon, você é o melhor comandante militar?
ÍON
Isso mesmo, Sócrates. E todas essas coisas eu sei por que aprendi com as obras de

Homero. SÓCRATES
Mas então, pelos deuses, Íon, sendo tanto o melhor comandante quanto rapsodo de toda a Grécia, por que você anda por aí se apresentando por toda a Grécia e não comanda exércitos? Ou você acredita que um rapsodo coroado com uma coroa de ouro é muito mais necessário aos gregos e um comandante não?
ÍON
Olha Sócrates, a nossa cidade é governada política e militarmente por vocês. Em razão disso, não precisamos de um chefe militar. A cidade de vocês e a dos Espartanos não me escolheriam como comandante das tropas porque acreditam que prá isso basta vocês mesmos.

SÓCRATES

Mas, meu excelentíssimo Íon, você não conhece o grande Apolodoro de Cízico?
ÍON
Grande quem?
SOCRATES
É o homem que os atenienses muitas vezes escolheram como comandante, apesar de ser

estrangeiro. E Fanóstenes de Ândros e Heráclides de Clazômene? São estrangeiros também. Mas porque demonstraram seu valor, a cidade os conduziu ao comando das tropas e a outros cargos públicos. Então será que Íon de Éfeso não seria escolhido comandante e não receberia honras se ele não parecesse ter valor? Por outro lado, vocês de Éfeso não são atenienses de origem? E por acaso Éfeso é de algum modo inferior a qualquer outra cidade? Mas de fato, Íon, se você fala a verdade ao dizer que realiza seu louvor de Homero baseado em habilidade e em muito raciocínio, você está agindo mal. Pois você me assegurou saber muitas e belas coisas sobre Homero e prometeu que iria demonstrar isso, mas me enganou: está longe de demonstrar o que sabe, e não quer mostrar as coisas sobre as quais você é muito bom, apesar de eu estar faz é
203

Marcus Mota
tempo pedindo. Simples: você se comporta como Proteu, se transformando em qualquer coisa, virando-se prá todos os lados, até por fim, após escapar de mim, reaparecer como um comandante de tropas, tudo para não me demonstrar o quanto você é bom no conhecimento de Homero. Se, como eu disse há pouco, você tem habilidade em Homero e me assegurou demonstrar isso, mas me enganou, então você está agindo mal. Porém, ao contrário, se você não tem habilidade em Homero e é por divina distribuição, possuído por Homero, que você, sem saber de nada, diz tantas coisas belas sobre ele, como eu falei antes, então você não está agindo mal. Escolhe agora o que você prefere: ser considerado alguém que está agindo mal ou que é divino.
ÍON
A diferença é muito grande, Sócrates. Mas é muito melhor ser considerado um homem divino.
SÓCRATES
De acordo com isso, recebe, a nosso ver, o melhor para ti, Íon: ser divino, mas não habilidoso no expressar-se sobre Homero. 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

COMO AS TEORIAS EM ARTES CÊNICAS SÃO ELABORADAS

1-Pontos de partida
2-Processo criativo
3-Argumentação
4-Texto/discurso


Exemplo

1- "Nota sobre a ópera Grandeza e Decadência da Cidade de Mahagonny", de B. Brecht

Ópera apresentada em 1930. 20 cenas.
Criação. Povoamento Prova e revelação da lei. SUcesso. Delito e Punição.


Link para a música apenas: https://www.youtube.com/watch?v=B8NK1_HVfEg

link para montagem em 1977: https://www.youtube.com/watch?v=2y0SmvSBzPc

Links para montagem com estudantes 2011.  1- https://www.youtube.com/watch?v=fTiLrG8pjVA&t=12s  .  2- https://www.youtube.com/watch?v=bUxAvTJBgis  3-  https://www.youtube.com/watch?v=WcK8_LNqr8A .


Aristóteles
É pois a tragédia imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efetua] não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o "terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções". (Poética, VI, 1449b 24-27). 
Isso seria a base para o naturalismo.

Reação de Brecht
"A nova Técnica de Representar"

"Numa representação em que não se pretenda uma metamorfose integral, podem utilizar-se três espécies de recursos para distanciar a expressão e a ação da personagem apresentada: 1. recorrência à terceira pessoa; 2. recorrência ao passado; 3. intromissão de indicações sobre a encenação e de comentários".

v. Dramaturgia não-aristotélica

http://www.raf.ifac.ufop.br/pdf/artefilosofia_14/(30-38)Bertolt_Brecht.pdf

Livro G. Borheim. Brecht a estética do Teatro.

terça-feira, 2 de maio de 2017

livraria do teatro online

Link para livraria especializada em obras teatrais.
A livraria fica em São Paulo.

Você consulta o catálogo online

https://www.livrariadoteatro.com.br/